beatriz oliveira

Nós dois

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Posso fechar os olhos e fazer um pedido para essa noite? Queria nós dois sozinhos aqui nesse apartamento.

Podemos jogar almofadas no chão da sala, pedir alguma comida ou cozinhar algo. Tudo bem, pode rir da minha sugestão, mas você sabe que eu ando me esforçando para melhorar o meu cardápio restrito de pipoca e bolo de cenoura. Você também não pode negar que o meu bolo é o melhor que você já experimentou em todos esses anos. Tenho até provas se tentar dizer o contrário.

Ah! Não esquece seu violão. Você pode cantar aquela antiga canção de sempre? A mesma que aproximou o meu coração para bem perto do seu.

Sabe, eu poderia passar a vida inteira vendo você tocar e me esforçaria para ficar com os olhos bem abertos para gravar cada detalhe desse momento. Mesmo se fosse no meio da noite e eu já estivesse caindo de sono e preocupada porque teríamos que acordar bem cedo no outro dia.

Não tivemos a sorte da nossa vida ser só assim, entre as nossas quatro paredes. A culpa foi minha por gastar todo o estoque que tínhamos naquela tarde quando nos esbarramos no café da esquina.Tudo bem, eu esbarrei.

Como sempre o meu jeito desastrado. Derrubei todo o meu café na sua camiseta azul, que mais tarde você confessou ser a sua preferida. “Ela me trouxe você” era o que você repetia sempre que alguém perguntava como nós dois nos conhecemos. Mesmo que isso não fizesse o menor sentido.

“Você quer subir? Meu amigo deve ter algo para te emprestar, eu moro no prédio no quarteirão da frente”. Foi o que eu disse após pedir desculpas de todos os modos possíveis que alguém pode se desculpar. Essa sempre foi a sua parte preferida da história, ela dava a abertura que você queria para falar “foi aí que eu soube o quanto ela me queria”. Você e o seu jeito abusado de sempre.

Você subiu aquele dia, passou por aquela porta e desde então faz esse caminho todos os dias.

“É que eu prefiro você aqui, bem juntinho de mim, onde eu possa ver esse seu sorriso logo pela manhã quando eu acordar”. Você sempre com essas histórias de levar nosso “relacionamento” para algo mais sério, com esse seu jeitinho difícil de me fazer conseguir recusar qualquer pedido seu.

Só de ver você assim, a vontade é de largar tudo e te acompanhar para onde você for.

Queria que soubesse que você pode ficar tranquilo. Apesar do meu jeito confuso, eu sempre vou preferir você aqui, bem juntinho de mim, sussurrando logo pela manhã todas as suas teorias do nosso amor. Mas, nós podemos resolver isso amanhã, não podemos? Para que a pressa de viver tudo agora se nós temos uma vida inteira pela frente.

Hoje queria que tudo ficasse assim, no nosso mundinho. Só nós dois, o seu violão e a aquela nossa velha canção.

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Depois de alguns meses distantes, pronunciar seu nome já não me causava a mesma sensação de estar levando socos no estômago. Era como se o meu coração estivesse se acostumando com a falta de um pedaço, o mesmo que você costumava preencher.

Por várias vezes tentei entender se foi mesmo necessário passar por tudo isso, mas não consegui. Mesmo se eu conseguisse ou mesmo se você me trouxesse todas elas, não fariam diferença. Nada mudaria como terminamos, nós não voltaríamos.

Você deve seguir seus sonhos. Foi o que pedimos um ao outro. Sem obrigações, sem compromissos, sem nossos desencontros que só causavam atrasos em nossa vida.

Eu ainda pensava naquele tempo. Seus olhos claros como o céu, seu sorriso tímido, sua voz tranquila, abraços fortes, ligações de madrugada, rosas no final da tarde e despedidas temporárias. Nunca tive o controle sobre a saudade, ainda mais sobre a que leva o seu nome junto.

Quem dera se eu pudesse dividir todo esse controle e desviá-lo para os meus sonhos.

Se fosse possível escolher um sonho para hoje, gostaria de sonhar com a noite terminando como era de costume. Com você ao meu lado, me apertando apenas para me ver irritada, achando graça de todas as minhas confusões e sussurrando em meu ouvido: eu não saberia explicar o que eu sinto com outras palavras que não estivessem entre as frases eu te amo e para sempre.

E vocês? Se pudessem escolher, sobre o que sonhariam hoje?

Saudade

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Hoje parei para pensar sobre a saudade. Olha, foi difícil achar algo que eu não sinta falta, mesmo quando pensei em alguns momentos ruins.

De primeira lembrei de quando era criança e a vida parecia ser tão fácil. Meu maior sonho era conhecer o mundo,  ainda guardo essa vontade. Acreditava em fantasmas, monstros, lobisomens, vampiros, bruxas e todos os seres que meus pais diziam não existir, tanto esforço para nada, nunca deixei de acreditar em todos eles.

Eram bons tempos quando minhas maiores decepções se resumiam em: saber que se eu fosse arqueóloga não viveria as aventuras do Indiana Jones, culpar o correio pela demora da minha carta para Hogwarts e esperar que alguém construísse o Jurassic Park para que eu finalmente conhecesse um dinossauro, meu primeiro fanatismo no mundo. Entre tantas outras que se acumularam com o tempo, como casar com o príncipe Harry e fazer parte da família real britânica.

A primeira vez que conheci a sensação da perda foi quando minha avó faleceu. Mesmo pequena, entendi o que seria nunca mais abraçar, ver ou conversar com alguém tão próximo. Senti a mesma sensação um ano atrás, quando perdi o único objeto que ela me deixou, não chorei pelo objeto, mas por sentir que a estava perdendo pela segunda vez. Talvez ela seja a melhor definição para saudade.

Então pulei para aquela expressão morder a língua, sabe? Aquele momento que você sente falta da escola, dos professores, até mesmo dos que pegavam no seu pé, e pensa no quanto deveria ter se esforçado e estudado mais. Bom, como o combinado matemática, química e física nunca foram meu forte, o resultado não teria sido tão diferente assim.

Que saudade da rotina, da cantoria nas aulas, do mau humor das amigas que levavam tão a sério isso de irmandade que até a nossa TPM dava um jeito de se encontrar na mesma semana, todo mês.

A primeira viagem com os amigos, a primeira vez longe de casa. Floripa me fez acreditar que teríamos todo o tempo do mundo, somos tão jovens, como diria a música do Legião Urbana. Então passou, dezoito anos, liberdade, faculdade.

Tive tantos planos, ganhei tantas responsabilidades e perdi contato com a maioria das pessoas que eram grudadas a mim ou mesmo ao contrário. Se você foi uma delas, saiba que ainda guardo um pedacinho de cada um de vocês em mim, não existem mágoas em meio a tantos sorrisos que já compartilhamos.

Sempre tive esse jeito difícil e insuportável, errei na mesma medida que já acertei muito nessa pouca vida que já vivi. Falando sobre a vida, agradeço ela pelas oportunidades, pelos encontros e desencontros e também pelas dificuldades, que apenas me ajudaram a crescer.

Nunca fui de muitas loucuras e poucos amores, taí, um dos meus maiores defeitos sempre foi ter amor demais, tudo que é exagerado faz mal, sempre fui confusa com os meus sentimentos. Então se um dia banquei a contrariada e orgulhosa, deixei você ir embora sem ao menos dar motivos para ficar, saiba que foi pelo único motivo de querer você sempre por perto. É que nunca soube explicar em palavras a sua importância na minha vida. Sempre esse meu jeito torto de ser.

Sem me alongar mais por aqui, vou para o final.

No começo queria escrever sobre todas as coisas de que sinto saudade. Acabei que me dei conta de que a saudade mesmo mal explicada por aqui, esteve presente em todas essas palavras, até mesmo nas lágrimas que caíram sem que eu percebesse ou nos sorrisos com a lembrança de tantas pessoas queridas.

Vou terminar com mais uma descoberta sobre mim: sinto saudades até mesmo do que eu ainda não vivi.

          Agradeço pela atenção e o carinho por vocês terem lido até o final, nunca escrevi algo tão próximo, como se fosse parte dos rascunhos que guardo em meu caderninho. Fico feliz por compartilhar isso com vocês. Mas quero saber, e vocês? Tem saudades do que?