beatriz oliveira

Sobre o que você tem escrito?

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Quase três da manhã. Me lembrei de uma conversa que eu tive há algum tempo atrás com uma velha amiga. Em resumo ela falava sobre sua certeza em me ver passar a vida inteira escrevendo, mesmo que essa não tivera sido a carreira que escolhi.

“Você narra sentimentos com uma facilidade incrível e mostra que existe o lado bonito em milhares de ângulos diferentes. E mesmo a tristeza, um peso nas costas de qualquer um, em seus versos acompanha cada sílaba com uma leveza açucarada.”

Me surpreendi para onde a conversa que começou com um “como você vai?” acabou chegando. Parece até que a pergunta foi “sobre o que você tem escrito?”.

Sobre isso, sinto-lhe informar que escrevo cada vez com menos frequência. Você se decepcionaria com as minhas novas histórias, elas não possuem rostos conhecidos, aqueles que você sempre tentou adivinhar entre um trecho e outro.

Também não ando sorrindo como o de costume. Não, não é pelos motivos que você deve estar se perguntando nesse momento. Eu só tive dias de céus nublados, foi só isso. Tenho me aproximado cada vez mais de mim e isso tem me deixado mais leve e até mais tranquila para pensar sobre quais mudanças eu quero para a minha vida. Mesmo assim meus dias têm sido agitados, e realmente espero que seja apenas uma fase.

Nada de tristeza por aqui, é só uma alegria mais contida. Até porque nem sempre é aconselhável falar sobre seus sonhos em voz alta. Existem momentos que o silêncio traz mais confiança do que as palavras de incentivo.

Só peço que tenha coragem, muita coragem, querido coração.

Quase vinte e um

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Eu sempre gostei de aniversários. Lembro que mesmo pequena planejava um mês antes, sempre com contagens regressivas, temas diferentes e o mesmo sabor do bolo, chocolate branco. Fui crescendo e a minha listinha me acompanhou com pequenos momentos envolvendo sorvete, séries e filmes de terror, aprenda que assistir Sexta-feira 13 e Hallowen nunca é demais.

“Nossa que horrível fazer aniversário perto do Natal, você só ganha um presente.” Cansei de ouvir a mesma frase quando me perguntam qual é a data do meu aniversário. Olha, para falar a verdade eu sempre ganhei dois presentes. Isso nunca me atrapalhou, era só um motivo a mais para comemorar. Foi só quando fiquei mais velha que foi complicando reunir todos os meus amigos, sempre tinha três ou quatro que viajavam. Mas, tudo bem, nós comemoramos antes ou depois. Outro aprendizado: comemorar e comer bolo nunca é demais.

Nunca fiquei tão feliz como quando fiz dezoito anos, nem ao menos compreendia a mala de responsabilidades que estava me esperando. Quer saber o mais engraçado? Ou desesperador, ainda não me decidi ao certo. Hoje, com quase vinte e um, tenho os mesmos medos.

Tenho medo de ir para a cidade grande. Tá, eu sei, eu sempre morei em cidade grande, mas, não é tão grande como eu coloquei na minha cabeça desde pequena.  Medo de deixar para trás a minha história e seus personagens e não querer voltar, não com a frequência que todos voltam.

Tenho medo do que me espera depois da faculdade, trabalho, pós graduação ou outra faculdade? São tantos caminhos. Tantos que tenho medo da onde a minha sede por “sentir livre” possa me levar. O mundo sempre pareceu pequeno comparado aos meus sonhos e todas as minhas vontades. E enorme comparado a tantos lugares que eu espero conhecer um dia.

Falando em vontades, não escrevi um livro, não aprendi a tocar violão e não venci a batalha que travei há alguns anos com a balança. Mas aprendi francês, faço o melhor brownie da região (pelo menos é o preferido do meu estômago) e perdi um pouco da timidez, pelo menos é o que falam por aí. Deve ser essa mania chata de falar mais do que a boca, atropelar frases e não pensar direito nas palavras. Pareço meio “dadá” mas é tudo um personagem tá?. “Se você não é, finja que é até virar.” Já ouviram esse conselho? Isso até que funciona bem.

Não, eu não deixei de complicar a vida. Até porque não seria eu, se não fosse assim. Calma, não precisa começar com broncas, eu deixei para trás alguns sentimentos ruins e histórias mal acabadas. Tentei encontrar aquela paz interior sabe? Me sentir mais leve.

Eu queria viver esse ano e não só viver. Não sei se faz algum sentido.

É estranho entrar nos vinte, é mais estranho ainda ir para o vinte e um. O futuro que parecia tão longe já bate aí na porta, entra sem esperar. Seus amigos começam a pensar em construir suas próprias famílias, alguns amigos continuam distantes, alguns conhecidos viram amigos e outros amigos são lembranças, daquelas boas que você guarda a sete chaves para quando sentir saudade.

Por falar na saudade, tenho saudade de pensar que eu tenho todo o tempo do mundo. Saudade de acreditar em alguns sentimentos que hoje são apenas uma confusão de entre linhas. Eu tenho tantas dúvidas. Acho que a vida é assim, ela vai ser sempre assim. Faz parte do crescer e amadurecer, ô processo chato esse de virar adulto viu.

Sabe que ficar longe de tudo vai me fazer bem. Ah é, eu não sei se comentei, mas eu estou indo para Londres daqui algumas semanas. A ideia surgiu da mesma de querer fugir, agora do que? Eu já não me lembro mais.

Vou com o coração aberto e as duas mãos ocupadas, uma carregando uma mala de coragem e a outra o meu fiel escudeiro, um caderno com algumas folhas em branco para rabiscar. Nessas duas décadas foram no meio desses rascunhos que eu aprendi a me expressar, passei por mudanças e encontrei você, mesmo que eu não saiba muito sobre quem você é.

Bom, vou terminando por aqui. Tenho que me preparar para assoprar algumas velas e ficar constrangida com mensagens de parabéns.

Vou tentar voltar aqui, pelo menos antes da viagem. Obrigada por me ouvir, queria poder te mandar um pedaço de bolo.

Com aquele abraço apertado e o sorriso de sempre,

a pessoa que procurando um refúgio encontrou um ombro amigo no caminho.

 

 

 

Senta aqui, escuta essa música

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Senta aqui um pouquinho. Me responde. Você consegue ouvir a música que está tocando? Está um pouco baixa, eu sei. Mas dá para reconhecer, você costumava a cantarolar a mesma canção todas as noites enquanto me observava escrever. “Estou só ajudando na sua inspiração”. Você repetia todas as vezes que eu olhava com um sorriso meio bobo, meio torto. “Você está me distraindo”. Era só mais uma tentativa frustrada de tentar acreditar que o problema estava no som da canção. Mas, na verdade consigo escutá-la até mesmo quando estou em silêncio.

Um abraço apertado e um pedido de mais cinco minutos. Eles duravam horas. Você se despedia me deixando livre para continuar a escrever sobre um dos meus assuntos preferidos, nós dois.

Quando não, a campainha tocava. Era você dizendo que havia se esquecido, aquela era a nossa noite. Me servia uma taça de vinho, ia para a cozinha prometendo o melhor prato da noite e voltava com aquele velho sanduíche de peito de peru. “Pode falar, eu te conquistei pelo estômago”. Você e seu jeito de me arrancar sorrisos e aumentar incontrolavelmente a coleção de borboletas escondida no meu… estômago. É, pensando bem, foi por lá mesmo que você me conquistou.

Você pegava o violão e só largava quando percebia que eu não iria conseguir segurar meus olhos abertos. Eu me deitava em seu colo, você mexia devagar no meu cabelo enquanto falava sobre nossos planos de viagem e tentava adivinhar como seria meu sonho daquela noite até eu cair no sono. Todos eles com a sua participação.

Eu sempre acordava na minha cama, com uma rosa do lado de um papel e um recadinho seu falando algo sobre buscar o café da manha na padaria ou ajudar o seu melhor amigo que você largou trancado para fora do apartamento de vocês. No final, minha parte preferida, alguns rascunhos sempre com aquelas palavras que nós encontramos no meio do amor acompanhado do para sempre.