beatriz oliveira

A sorte de ter você

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Voltei ao décimo andar, o nosso décimo andar. Estava a caminho da comemoração de véspera de Natal na casa da Júlia e do João, dois números a frente do apartamento que nós morávamos.

Ainda consigo sentir o cheiro de peru queimado que invadiu todo o corredor, tudo porque você insistiu com o seu irmão, o Lucas, de que ficaria até melhor do que o peru da sua mãe. Isso nunca daria certo e não deu.

A dona Lúcia do apartamento da frente queria chamar até os bombeiros, lembra? Prometi que nunca mais isso se repetiria.

Queria dizer que foi o único perrengue que passamos. Mas não dá para esquecer que a Bárbara brigou com o namorado, que nós tínhamos acabado de conhecer, só porque ele começou a se aproximar do Gustavo, com quem ela passou a vida inteira de idas e vindas.

Teve também a Júlia e o João que ficaram presos no metrô e perderam todo o jantar e a Gabi que esqueceu os presentes na farmácia.

Mas quer saber do que eu não consigo me esquecer? Nem por um segundo?

De acordar naquela manhã com cheiro de biscoitos de chocolate pela casa. De ir até a sala e pegar você dançando e cantarolando enquanto terminava de colocar a decoração na nossa árvore. Ah! E de tentar esconder aquela pequena caixa azul debaixo das almofadas do sofá, para que eu não encontrasse o anel. O mesmo anel da nota fiscal que eu encontrei perdido no seu jeans do banheiro na noite anterior.

Eram nesses pequenos momentos que eu respirava fundo, deixava escapar um sorriso largo e pensava alto: como eu tenho sorte de ter esse cara.

Então você me abraçava apertado, me enrolava com as luzes de Natal, me irritava com cócegas e sussurrava no meu ouvido: você está errada, porque quem tem sorte aqui sou eu!

É, eu nunca soube como você conseguia descobrir todos os meus pensamentos, mesmo quando não eram em voz alta.

-Você veio. João abriu a porta e logo me puxou para cumprimentar o pessoal.

O Gustavo e a Bárbara tinham voltado e agora era para valer. Eles iam se casar daqui dois meses. A Júlia está grávida de uma menininha e o Lucas já está no elevador, foi buscar a Gabi para garantir que dessa vez os presentes não se perdessem no caminho.

O peru está delicioso, não acordei com cheiro de cookies e toda a decoração está impecável.

Sobre aquele anel?  Você preparou uma surpresa quando o relógio marcou meia noite. Hoje ele está na minha mão esquerda, mas você está longe.

Respirei fundo. “Queria a sorte de ter você aqui.”

Então recebi uma mensagem. “Eu é quem queria ter a sorte de você estar aqui. Te amo, te vejo em quatro dias.”

Eu nunca descobri como você adivinhava os meus pensamentos. Mas aos poucos fui entendendo que toda sorte era na verdade amor e isso, nós temos para dar e vender.

 

Me abraça forte e não solta

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Você me leva aos extremos em questões de segundos. “Para amor, você está me constrangendo.”Aqueles olhos castanhos escuros atentos a cada sílaba das milhares de palavras que eu nunca vou conseguir prender dentro dessa minha boca enorme.

Um suspiro, dois suspiros, três suspiros. A conta para me apaixonar todos os dias como se fossem o primeiro.

O mesmo jeito desencanado, cabelo bagunçado e sorriso de menino esperto, como você mesmo o chama, que me conquistou anos atrás. Abusando sempre das palavras certas como se tudo fosse parte de um plano minimamente arquitetado para me fazer ficar por aqui apenas de olho em quem se aproxima de você. Esperando eu ficar brava por qualquer motivo, para repetir “esse lugar sempre foi seu”.

Sei que exagero até nos meus exageros, mas que culpa tenho eu, se atravessei a rua e esbarrei com o cara certo na esquina errada. Oh jeitinho torto esse nosso de começar e recomeçar uma relação atrapalhada.

Somos iguais nos defeitos, nas manias e no deixa a vida me surpreender. Mas por hoje, só volta aqui. Me abraça forte e não solta. Pra quê a pressa se o mundo lá fora não irá mudar caso a gente resolva ficar por aqui, no nosso mundinho, por mais algumas horas.

 

Toda mãe é igual, toda mãe é feita de algodão

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Eu devia ter uns dez anos quando a professora, na época do dia das mães, pediu para que a sala escrevesse uma redação sobre as mães. Eu não lembro com todas as palavras, vírgulas e pontos, mas lembro que meu texto era sobre como todas as mães eram iguais, e continha até um senso de humor.

Todas as mães durante as broncas falam nossos nomes inteiros, possuem o mesmo questionário quando você começa a sair de casa à noite e sempre pedem para que você leve um casaco, caso esfriar, mesmo nos dias mais quentes do verão. Reclamam da bagunça no quarto, fazem seus pratos preferidos quando você está triste e vibram por todas suas vitórias. Vai falar que não?

É normal que aconteçam brigas e todos aqueles momentos onde você precisa de um espaço. Isso não quer dizer que você não deixe de amar, nem por um segundo, a primeira pessoa que lhe ensinou o verdadeiro significado do amor.

No final, ela é a única que nunca vai te abandonar mesmo que seu sonho esteja do outro lado do país, o que significa que você não vai mais viver debaixo dos braços dela. Mesmo que não fosse o que ela gostaria, ela não vai se opor as suas decisões. E você se despede com a tranquilidade que sempre haverá um colo para te receber de volta.

Também existem tapas, até porque mãe fala a verdade quando ela deve ser dita, aquele negócio de falar o que você deve e não o que você quer ouvir. A diferença é que todas suas palavras são apenas para o seu próprio bem. E pode ter certeza, isso sempre irá doer mais nela do que em você. Mas aí de quem falar mal do filho dela, é melhor a pessoa correr igual você quando aprontava algo na infância.

Olha, como falam por aí, nem tudo na vida é feita de flores. Por isso acho que as mães devem ser feitas de algodão doce. Elas são tão amáveis mesmo sendo tão diferentes uma da outra pelo lado de fora, é como se fossem um pedacinho de céu que nós temos na terra. Assim como o algodão e a sua forma de nuvem, sua textura fofa em todas suas diferentes cores e tamanhos.

Não é que meu texto fazia sentido afinal?

O segredo é que não vai só açúcar na receita, vai é uma mistura de um punhado de coisas boas criadas por Deus. Oh, caprichou demais né? O nosso muito obrigado por isso <3

Não posso deixar de falar das mães que nós encontramos pela vida. As mães em dobro, nossas avós, as segundas mães que nossas mães escolhem, nossas madrinhas, as madrastas que de “má” não possuem nada e acabam virando mães, as mães dos nossos amigos que carinhosamente chamamos de tias e são tão próximas quanto.

Para terminar. Só queria compartilhar um clipe da banda Scalene feito para as mães. Espero que gostem e um feliz dia das mães, mesmo que os outros 364 dias também sejam delas <33