beatriz oliveira

Sobre as nossas fotos escondidas

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Eu tinha escondido nossas fotos, apaguei as mensagens e deletei o seu contato do meu celular, o mais rápido que pude.

Me esqueci que não dá para fazer o mesmo com o coração. Fui inocente ao pensar que eu conseguiria da noite para o dia apagar quase três anos de lembranças, de boas lembranças. Eu precisaria esquecer de alguns aniversários, dos churrasco entre amigos, do momento em que cheguei na faculdade e de tantos primeiros dias.

O tempo demorou a esquecer sua voz, o conforto do seu abraço mas deixou para traz resquícios do seu sorriso. Ficaria sem graça se esquecesse teu jeito bobo de me fazer rir e de como você era um dos únicos a me chamar pelo meu apelido preferido.

Sentimentos se transformam o tempo todo, como nós também nos transformamos. Você não me reconheceria do mesmo jeito que quando te encontrei aquele dia no bar, não o reconheci. Não é o mesmo garoto pelo qual me apaixonei tão cegamente anos atrás, não é o mesmo cara que guardei mágoas que me fizeram trancar a porta para qualquer outro par de olhos azuis, castanhos, pretos ou verdes.

Encontrei as fotos quando procurava outras lembranças com algumas amigas. Estranho né? Mas senti uma pontada de saudades, daquele tempo, não saudades te pedindo para voltar, como pedi várias vezes em silêncio. Foi um tempo bom, com sensações incríveis.

Senti a vida me mandando um recado, senti um ombro amigo, alguém que se importa, me dizendo para deixar tudo sempre assim. “Deixa a alma, o coração e a tua vida pegando o melhor do que já viveu.” Resolvi deixar, te deixar, me deixar respirar e ver onde é que a vida vai nos levar.

Nós poderíamos dar certo

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Nós poderíamos dar certo se você não andasse para direita enquanto eu dou meus tropeços para a esquerda. 

Nós até ficaríamos juntos se você ficasse acordado até o sol nascer e eu não acordasse quando ele se põe.

Nós daríamos mais gargalhadas se aquele final de semana na praia não fosse confundido com o fim do mundo, cheio de raios e trovões. Não queria nem falar sobre as horas perdidas na estrada, por causa da sua cabeça dura de não pedir ajuda e confiar em lembranças de quando você tinha cinco anos e fez uma viagem em família, mesmo quando você não consegue nem ao menos decorar o número do seu RG ou o aniversário dos seus três irmãos. 

Nós falaríamos mais, se você não deixasse o celular perdido pela casa, do lado da sua carteira, próximo do seu casaco que está em cima do notebook, sempre que eu tiro do modo silencioso.  E você ainda briga comigo, mas faço isso para poder me concentrar.

A culpa é toda sua! Eu poderia me concentrar mais, se você não me tirasse a atenção a cada lembrança sua que tenho durante 24 horas do meu dia, sete vezes por semana e nem estou contando as vidas passadas. Ai aparece aquele sorriso bobo, seguido de um suspiro alto e a vontade de pedir para você voltar, para ficar e permanecer.

Você me deixa assim, mais louca do que já sou. Me embaraça e me tranquiliza, com a sensação de que tenho tudo sobre controle ao mesmo tempo que nada está ao meu alcance. 

Nós poderíamos nos abraçar mais se você não fosse sinônimo de liberdade e se livre não fosse um adjetivo entre aspas para esse relacionamento.

Aquele que poderíamos ter se você não tivesse o mesmo nome dos outros, o mesmo signo, tinha que ser de câncer, e trejeitos. Perseguição minha, talvez. Mas, tudo bem! Assumo a responsabilidade, tenho todas a indecisões e paranóias de uma boa geminiana. 

Devem ser as estrelas, os planetas, todo o universo. Tudo bem, tudo bem! Deve ser só essa vontade do meu coração grudar com o teu e deixar o sentimento entrar, deixar ele transbordar.

 

Um exagero, um desabafo e 22 anos

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Quando era criança queria ser arqueóloga. Eu tinha onze anos, era apaixonada por Jurrasic Park, colecionava dinossauros e achava incrível a vida de aventuras do Indiana Jones. Eu acreditava na ilha Sonar, profecias e sociedades secretas. Eu amava história.

Quatro anos depois encontrei na escrita uma forma de desabafar sobre tudo o que me incomodava no mundo. Esses textos eram horríveis e até confesso, sempre fui – com todos os exageros – drama queen. Meus sonhos mudaram nessa época, eu queria escrever livros, estudar cinema e conhecer o mundo.

Com dezoito  anos entrei na faculdade. Acabou que história, leitura e a escrita me levaram ao jornalismo. Pela primeira vez percebi que algo na minha vida fazia sentido. Queria de algum modo mudar o mundo, mas esqueci que é justamente ele, quem faz com que a mudança aconteça nas nossas vidas.

Com vinte e um, vinte e um gente, dá para acreditar? Com quase os dois pés na vida adulta, a espera pela carta de Hogwarts, a trilha sonora com Beatles e McFly e o meu encantamento com a família real britânica, tudo bem, a minha paixão pelo príncipe Harry, me fizeram chegar em Londres. Um tapa bem dado na cara, a terra da Rainha me lembrou de todos os sonhos que carregava comigo. Voltei mais leve, um pouco confusa e feliz.

Foi um ano complicado, desgastante e com muito sono acumulado.

Agora são 22, esse texto está atrasado, faço em Dezembro, desculpa! Minha falta de time é incrivelmente horrível. Com os dois pés já na vida adulta, recém-formada em jornalismo, empregada e com milhares de responsabilidades, ainda me pergunto qual é o meu lugar.

Esqueço com frequência que se tem algo que nós sabemos é o lugar onde pertencemos e quem amamos. O mundo pode e dá voltas, mas nós sempre paramos onde sentimos que estamos em casa e nada impede de termos várias espalhadas por aí. Anota algo de extrema importância: pessoas também são nossos lares.

Grande culpa é do problema de sempre. Nós gastamos horas nos arrependendo pelo passado e colecionando ilusões sobre o futuro que esquecemos de apenas viver e aproveitar o que temos nesse momento.

A vontade de voar para longe e me sentir livre não diminui, essa nunca passa. Mas está tudo bem, sempre fica bem.

Quer saber? Algo me diz que esse sorriso meio de canto, esse suspiro profundo e o pouco de brilho nos olhos são um sinal – eu sempre acreditei neles – de que estou no caminho certo, mesmo me sentindo completamente errada, confusa ou apenas exagerando sobre tudo ao meu redor.