beatriz oliveira

A última carta que eu não mandei

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Contando com essa, são cento e duas cartas que eu nunca enviei. Sem contar os milhares de rascunhos que ainda estão perdidos por aí. Você nunca pararia seu tempo para ler.

Para ser sincera, não lembro de todas as palavras que estão escritas, mas acredito que a maioria descreva seu jeito tímido, o cabelo bagunçado, o sorriso de canto e a sua expressão quando percebia que algo me incomodava em você.

Talvez eu tenha falado sobre seu perfume, um ou dois abraços e quando desabafou sobre suas inseguranças, assuntos que nunca tocamos antes.

Nunca entendi meus sentimentos. Não sei, acho que foi uma mistura de amizade, companheirismo e a vontade de “nós” ser algo real. Acreditei que o que eu procurava estava em você, mesmo sem saber que o que eu mais precisava estava dentro de mim.

Sabe, eu tinha medo de como seria quando eu falasse de amor e não fosse sobre você, mas percebi que posso encontrar ele em outros endereços e em outros olhos, mesmo que estes não me lembrem a jabuticabas.

Houve um tempo que esse sentimento me fez bem. Agradeço pela inspiração, devo alguns textos a você. Me desculpa a rispidez entrelinhas ou as mágoas nada subentendidas, todo amor tem suas decepções.

Não é com amor, mas com uma pequena saudade daquele tempo e de tudo o que vivemos,

quem mesmo longe, deseja que você seja feliz.

 

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90699b33454ceccbe8ea3f89a90f2603Nós vivemos em um mundo com rótulos, mas não quero falar sobre eles por aqui.

Me deu foi vontade de falar sobre o que sem perceber aprendi com a minha mãe.

Minha mãe passou a vida inteira com o meu pai. Começaram a namorar aos 17 anos, casaram 10 anos depois e estão juntos até hoje. Minha mãe sempre teve a vida dela, como mulher, e a vida como esposa e mãe. Trabalha em casa e trabalha fora. Aliás, trabalha fora desde pequena, quando queria apenas um dinheiro para ir ao cinema.

Meus pais não são nada parecido. Minha mãe é extrovertida, “da galera” sabe? Já meu pai prefere ficar no cantinho dele, mas nem por isso, ela nunca deixou de dançar a noite inteira em uma festa e ele nunca a proibiu de nada, mesmo não levantando e a acompanhando para o meio do salão. Até porque, a única pessoa que teria o direito de proibir algo, seria ela mesma.

Minha mãe sempre foi cheia de vontades, ainda é, e sempre fez todas. Meu pai nunca foi contra, pelo contrário, sempre deu força.

Foi nos pequenos detalhes que minha mãe me ensinou que nós mulheres podemos conquistar tudo o que os homens também podem. Não é questão de gênero, é questão de força de vontade e ir atrás do que você realmente quer. Me ensinou que um relacionamento é para transbordar e não complementar. Eu não preciso procurar no outro o que falta em mim, primeiro preciso me completar, para assim conseguir achar o outro.

Me ensinou que eu não nasci feita para isso ou para aquilo. Eu sou feita para o que eu quiser fazer.

Sou péssima com deveres da casa, não sei passar roupa e sou toda atrapalhada. Mas aprendi que cada um deve fazer sua parte em casa e isso inclui meu pai. Sabe, eu até prefiro que ele não lave a louça, não por achar que essa não é sua obrigação, mas porque ele não lava direito. Quando ele souber que eu disse isso aqui, irá negar com todas as palavras. Desculpa pai, mas é a verdade.

Minha mãe nunca usou qualquer “chismo” ou “nismo” dentro de casa. Tudo bem, somos sensíveis e com trejeitos delicados, mas nós garotas somos duras na queda. Falo pelo meu pai, uma manteiga derretida e pela minha mãe, a pessoa que segura aos trancos e barrancos todos os problemas da casa, da família, do trabalho e de quem for próximo dela.

Minha mãe me ensinou a ser livre e a ter o controle da minha liberdade. Liberdade para ser quem eu sou, para usar as roupas que eu quero, mesmo quando apareço com calças inteiras rasgadas, ouvir e ver filmes independente de qualquer coisa, lá em casa nunca teve essa de “esse filme não é adequado para você”. Aprender com meus erros e não deixar de lado minhas pequenas vitórias, independente do tamanho, elas também devem ser reconhecidas.

Mas tudo com respeito. Respeito a opinião de cada um, mesmo que eu não concorde em algo. Aprendi que somos diferentes e é essa a melhor parte do mundo: sua diversidade.

Espero um dia passar tudo o que minha mãe me ensinou para os meus filhos, sejam eles meninos ou meninas.

Minha mãe nem deve conhecer a expressão Girl Power, mas olha, ela me ensinou todas as definições possíveis desse termo.

Quer saber do mais? O problema não é você gostar de azul ou rosa, sua opção sexual ou qualquer diferença ainda criticada pelas pessoas. O problema é você não enxergar o que tá dentro das pessoas e não tratar com algo que é de graça, nasce com a gente e o que devemos dar sem esperar receber: amor.

Use o que você quiser, seja você mesmo, pense, seja o “chefe”.

 

 

 

Domingo, Netflix e amor

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Ele cantarola Cazuza. A voz leve, o espírito livre. Me entrelaça para tentar me ensinar algumas notas que mesmo simples, eu não consigo aprender. Música nunca esteve entre os meus talentos, mas é o que ele tem de sobra.

Está tudo bem! Eu fico bem aqui, quieta, prestando atenção em cada verso, em cada estrofe e em cada tom.

Ele escreveu uma música para mim e morreria de vergonha se eu compartilhasse com alguém, então me perdoem, prometo que tentarei chantagens e mais chantagens para convencê-lo.

Ele tem a voz doce, mas tem a cabeça dura que quando junta com o meu gênio forte é melhor ninguém ficar por perto. Ele me abraça como se eu fosse seu mundo, mal sabe que sou eu quem estou abraçando o meu.

Nós nos conhecemos através dos nossos melhores amigos nas férias do ano passado. Não acredito que nunca nos esbarramos por aí, a cidade não é grande e temos quase os mesmos gostos e vários amigos em comum. Laura estava começando um namoro com o Caio, então saímos nós quatro e desde então, somos grudados. Eles completaram um ano de namoro, nós dois? Um dia após o outro. Não somos de rótulos, não mudamos status das redes sociais, só seguramos a mão um do outro naquela tarde e não soltamos mais.

Daqui duas semanas ele faz aniversário, eu preparei uma surpresa, mas é segredo! Diferente dele, eu mantenho quase sempre minha boca fechada. Dois meses atrás, foi meu aniversário e ele também preparou uma festa surpresa, o problema foi que algumas horas antes ele me contou dela. O plano era que todo mundo esquecesse a data, Laura sempre fala que sou chata e adivinho todas as surpresas, então eles estavam determinados a me pegar nessa. Mas é que ele ficou tão animado que seria o primeiro aniversário que passaríamos juntos que deixou escapar toda a informação.

No final, deu tudo certo. Eu fingi que era surpresa, guardamos esse pequeno desastre e ninguém saiu chateado. Não tinha outro jeito, como é que a gente culpa esses olhos da cor do mar, me implorando por perdão?

Eu não sou de falar muito, mas ele é incrível, em todas as definições possíveis que ela palavra possa ter. Queria roubar ele para mim, esconder em um potinho. Ao mesmo tempo quero mostrar para todo mundo a sorte que eu tive quando tropecei na frente dele. Não, eu realmente tropecei, naquele dia que saímos com Laura e Caio eu levei o maior tombo e caí em cima dele.

Que cupido o meu viu, foi torto mas caprichou. Caprichou tanto que estou aqui, suspirando alto, enquanto ele está na varanda cantando nossa música, aquela sobre o décimo segundo andar e o bairro da Laranjeiras. Por acaso nosso andar, por acaso nosso bairro, por acaso comecei a acreditar que nada é tão por acaso desde que o encontrei.

-Vem para cá, o que você tanto faz aí? Acho que ele adivinhou que eu estou aqui no meu cantinho, falando dele para vocês.

-Estou indo! Já gritei de volta, antes dele correr para xeretar meus rascunhos. Ele é curioso que só.

Já viram né? Depois volto aqui, conto mais, falo de nós dois. Vocês entendem né? O amor chamou e como não sou boba nem nada, vou lá atrás de ficar bem grudada nele.

E olha que não somos esse tipo de casal grudento, pelo contrário, meu espaço, meu espaço, o espaço dele, espaço dele. Mas é domingo também conhecido como o dia da preguiça e de ficar ali, deitada bem do ladinho, escolher um filme no Netflix e forrar o estômago só de pipoca.

Prometo voltar, aqui o que não falta é assunto, principalmente, se for para falar sobre o meu preferido.