COMPORTAMENTO

A última carta que eu não mandei

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Contando com essa, são cento e duas cartas que eu nunca enviei. Sem contar os milhares de rascunhos que ainda estão perdidos por aí. Você nunca pararia seu tempo para ler.

Para ser sincera, não lembro de todas as palavras que estão escritas, mas acredito que a maioria descreva seu jeito tímido, o cabelo bagunçado, o sorriso de canto e a sua expressão quando percebia que algo me incomodava em você.

Talvez eu tenha falado sobre seu perfume, um ou dois abraços e quando desabafou sobre suas inseguranças, assuntos que nunca tocamos antes.

Nunca entendi meus sentimentos. Não sei, acho que foi uma mistura de amizade, companheirismo e a vontade de “nós” ser algo real. Acreditei que o que eu procurava estava em você, mesmo sem saber que o que eu mais precisava estava dentro de mim.

Sabe, eu tinha medo de como seria quando eu falasse de amor e não fosse sobre você, mas percebi que posso encontrar ele em outros endereços e em outros olhos, mesmo que estes não me lembrem a jabuticabas.

Houve um tempo que esse sentimento me fez bem. Agradeço pela inspiração, devo alguns textos a você. Me desculpa a rispidez entrelinhas ou as mágoas nada subentendidas, todo amor tem suas decepções.

Não é com amor, mas com uma pequena saudade daquele tempo e de tudo o que vivemos,

quem mesmo longe, deseja que você seja feliz.

 

Sobre as nossas fotos escondidas

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Eu tinha escondido nossas fotos, apaguei as mensagens e deletei o seu contato do meu celular, o mais rápido que pude.

Me esqueci que não dá para fazer o mesmo com o coração. Fui inocente ao pensar que eu conseguiria da noite para o dia apagar quase três anos de lembranças, de boas lembranças. Eu precisaria esquecer de alguns aniversários, dos churrasco entre amigos, do momento em que cheguei na faculdade e de tantos primeiros dias.

O tempo demorou a esquecer sua voz, o conforto do seu abraço mas deixou para traz resquícios do seu sorriso. Ficaria sem graça se esquecesse teu jeito bobo de me fazer rir e de como você era um dos únicos a me chamar pelo meu apelido preferido.

Sentimentos se transformam o tempo todo, como nós também nos transformamos. Você não me reconheceria do mesmo jeito que quando te encontrei aquele dia no bar, não o reconheci. Não é o mesmo garoto pelo qual me apaixonei tão cegamente anos atrás, não é o mesmo cara que guardei mágoas que me fizeram trancar a porta para qualquer outro par de olhos azuis, castanhos, pretos ou verdes.

Encontrei as fotos quando procurava outras lembranças com algumas amigas. Estranho né? Mas senti uma pontada de saudades, daquele tempo, não saudades te pedindo para voltar, como pedi várias vezes em silêncio. Foi um tempo bom, com sensações incríveis.

Senti a vida me mandando um recado, senti um ombro amigo, alguém que se importa, me dizendo para deixar tudo sempre assim. “Deixa a alma, o coração e a tua vida pegando o melhor do que já viveu.” Resolvi deixar, te deixar, me deixar respirar e ver onde é que a vida vai nos levar.

Nós poderíamos dar certo

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Nós poderíamos dar certo se você não andasse para direita enquanto eu dou meus tropeços para a esquerda. 

Nós até ficaríamos juntos se você ficasse acordado até o sol nascer e eu não acordasse quando ele se põe.

Nós daríamos mais gargalhadas se aquele final de semana na praia não fosse confundido com o fim do mundo, cheio de raios e trovões. Não queria nem falar sobre as horas perdidas na estrada, por causa da sua cabeça dura de não pedir ajuda e confiar em lembranças de quando você tinha cinco anos e fez uma viagem em família, mesmo quando você não consegue nem ao menos decorar o número do seu RG ou o aniversário dos seus três irmãos. 

Nós falaríamos mais, se você não deixasse o celular perdido pela casa, do lado da sua carteira, próximo do seu casaco que está em cima do notebook, sempre que eu tiro do modo silencioso.  E você ainda briga comigo, mas faço isso para poder me concentrar.

A culpa é toda sua! Eu poderia me concentrar mais, se você não me tirasse a atenção a cada lembrança sua que tenho durante 24 horas do meu dia, sete vezes por semana e nem estou contando as vidas passadas. Ai aparece aquele sorriso bobo, seguido de um suspiro alto e a vontade de pedir para você voltar, para ficar e permanecer.

Você me deixa assim, mais louca do que já sou. Me embaraça e me tranquiliza, com a sensação de que tenho tudo sobre controle ao mesmo tempo que nada está ao meu alcance. 

Nós poderíamos nos abraçar mais se você não fosse sinônimo de liberdade e se livre não fosse um adjetivo entre aspas para esse relacionamento.

Aquele que poderíamos ter se você não tivesse o mesmo nome dos outros, o mesmo signo, tinha que ser de câncer, e trejeitos. Perseguição minha, talvez. Mas, tudo bem! Assumo a responsabilidade, tenho todas a indecisões e paranóias de uma boa geminiana. 

Devem ser as estrelas, os planetas, todo o universo. Tudo bem, tudo bem! Deve ser só essa vontade do meu coração grudar com o teu e deixar o sentimento entrar, deixar ele transbordar.